O que é neo-ateísmo?

 

Richard Dawkins, um dos principais ícones do neoateísmo. Suas críticas à religião são consistentes em muitos aspectos, mas sua denegação peremptória da religião deixa de lado questões históricas e antropológicas importantes para se compreender a força cultural dos fenômenos religiosos.
Richard Dawkins, um dos principais ícones do neoateísmo. Suas críticas à religião são consistentes em muitos aspectos, mas sua denegação peremptória da religião deixa de lado questões históricas e antropológicas importantes para se compreender a força cultural dos fenômenos religiosos.

Nos últimos tempos muito se tem visto na internet a ação de pessoas e grupos que, rotulando-se de ateus e inspirados nas ideias de Richard Dawkins e outros intelectuais, geralmente jornalistas e genericamente conceituados como neo-ateus, têm criado fóruns, perfis e grupos de discussão discutindo religião com base quase exclusivamente no achincalhamento, ridicularização de símbolos, doutrinas e outros elementos religiosos, além de acusações e usos equivocados de conceitos. Em geral, essas discussões não são pautadas em leituras, problematizações, debates, esclarecimentos, mas ironias, escárnios, tendo eles em comum uma forte antipatia por tudo o que é religioso. Por isso chegam mesmo a defender ideias em desuso, como a negação da existência histórica de Jesus Cristo, além de criticarem a Bíblia baseados, curiosamente, numa leitura literal que fazem dela. É preciso então compreendermos as raízes desse movimento para discutirmos sua manifestação.

A partir do século XX, Deus não era mais um problema para a filosofia. Com algumas poucas exceções como Sartre, a filosofia praticamente não se ocupou mais dessa discussão. Não porque o tema não fosse mais relevante, mas porque desde a constatação da morte de Deus por Nietzsche, o assunto ficou praticamente encerrado. Ainda no século XIX, Marx também já tinha se dado conta disso, quando, sem querer repetir Feuerbach, constatou que a teologia havia se humanizado, tornando-se política. No século XX, a questão de Deus passou a ser tema de uma teologia agonizante, que dividiu-se entre, por um lado, a reclusão no fundamentalismo e, por outro, sua própria problematização, no caso da teologia alemã, uma continuidade do método histórico-crítico. Já o fundamentalismo não é bem uma teologia, mas uma defesa, é um movimento religioso pautado no medo de aniquilação, por isso sua reafirmação contundente e constante de uma leitura literal e fechada da Bíblia.

Fora da teologia, Deus se tornou um problema apenas na Biologia, pois, já que o evolucionismo está em seu campo de estudos, foi contra ela que se voltaram os mais ferrenhos ataques dos fundamentalistas. No meio de tudo isso, o neo-ateísmo já nasceu como um movimento ultrapassado. Esse movimento surgiu nos últimos vinte a trinta anos, no mundo anglófono e tendo em Richard Dawkins um de seus principais arautos. Dawkins constatou que a queda da qualidade da educação inglesa estava levando a um desenvolvimento do misticismo naquela sociedade. Diante disso, ele usou sua área de estudos para desferir ataques peremptórios à religião. E ao fazer isso cometeu vários erros grosseiros.

Um desses erros foi ter voltado seu ataque contra o Cristianismo, colocando-o como rival da ciência. Ao agir assim, ele tomou a Bíblia como uma narrativa literal e, consequentemente, como uma pseudoexplicação do mundo. Isso foi semelhante a ele ter tomado um romance por um tratado de história ou sociologia. Seu livro “Deus, um delírio” se tornou um best-seller e lhe rendeu muito mais fama do que talvez ele pudesse ter imaginado. Embora o livro não seja de todo descartável, é um culto à intolerância e uma afronta à inteligência. O que ele fez foi ter escrito um manual, uma Bíblia antirreligiosa. Nesse sentido, também Christopher Hitchens e Sam Harris caem nas mesmas armadilhas.

Outro erro de Dawkins é considerar que a religião é inerentemente infensa à liberdade e ao pensamento científico. Embora em muitos casos a religião de fato tenha obstaculizado o desenvolvimento da ciência, uma leitura de Max Weber nos fará perceber que o desenvolvimento científico e até mesmo econômico em muitos casos dependeram de um certo tipo de crença em Deus ou em deuses, de uma certa concepção religiosa. A sociologia weberiana é uma sociologia da ação e, para ele toda ação é racional, inclusive a religiosa. Seus estudos comparados das religiões mostram que elas contribuíram para uma racionalização do mundo e, no caso do Ocidente, o Calvinismo foi decisivo para seu posterior desencantamento.  Em geral, os admiradores de Dawkins são pessoas que saíram da religião mas a fé religiosa não saiu deles.

Para termos uma ideia disso, basta vermos quem é o seu público. Se pegarmos o caso do Brasil, seus seguidores são pessoas de baixa escolaridade, de pouca ou nenhuma produção científica; em geral, são adolescentes, jovens que apenas se revoltaram contra a religião e viram em Dawkins a figura de um novo messias, devotando a ele um sentimento tão religioso quanto o dos fundamentalistas no campo oposto. São garotos que se revoltaram contra os pais e usam o ateísmo para manifestar isso. O que existe nos fóruns ateus da internet em geral não passa de verborragia ignorante. É uma juventude sem formação filosófica, humanística, sem leitura histórica, que acorda todos os dias e precisa estar nos fóruns e redes sociais da internet reafirmando seu ateísmo e confundindo crítica com insultos à religião. Não compreendem a importância da religião como força cultural. Eles não compreendem que a profusão de radicalismos e tendências religiosas em nossa época se deve a um deslocamento da política. Isso porque eles vieram de uma educação básica fraca, não sabem o que é crítica, nem discussão de ideias. A maioria desses jovens nunca leu Comte, Feuerbach, Russel, Foucault e alguns nem sabem que eles existiram. Muitos desses jovens defendem a evolução sem nunca terem lido Darwin ou falam de tolerância sem nunca terem lido Voltaire, Rousseau, Montesquieu.

Richard Dawkins, como diz Terry Eagleton, é um “caso de ateísmo evangélico”. Ora, o ateísmo moderno se originou no Iluminismo como uma indisposição para com a Igreja e os atos de intolerância que ela representava. O ateísmo surge como uma posição negativa, de não-aceitação, mas ao mesmo tempo como um posicionamento consciente de sua condição de exceção. Homens como Diderot, Comte, Feuerbach, Darwin, sabiam que o ateísmo é aristocrático e que insultar e ofender publicamente a religião apenas reforçará a incompreensão e aversão da sociedade. O ateu não tem que buscar reconhecimento porque a sociedade não lhe dará isso e, num regime democrático, ele nem mesmo precisa disso. O desejo de alguns ateus de serem reconhecidos como grupo coeso da mesma forma como os segmentos religiosos é ilegítimo e não faz sentido. O ateísmo é uma ideia, não uma doutrina baseada num livro sagrado ou uma identidade cultural ou de gênero. O que faz sentido é promover o debate, a discussão aberta, sem lançar mão do discurso ultrajante à religião e os ateus brasileiros sequer conseguem fazer isso.

Quando se queixa do não desaparecimento da crença em Deus e na transcendência, Dawkins deveria refletir mais profundamente sobre as causas do reencantamento do mundo e da falência do projeto iluminista e seu alinhamento ao corporativismo, ao estado policialesco e à economia de guerra. Ao contrário, sua visão da religião, ao não se permitir aceitar que ela tenha de alguma forma beneficiado a humanidade, é revoltantemente falsa. Uma crítica honesta não seria tão impostora. Ao absorver suas páginas de fácil compreensão, a juventude passa a ver a religião como a caricatura do mal, isto é, há um reforço de uma visão maniqueísta deletéria a uma compreensão histórica. Diferentemente dos velhos ateus do século XIX e início do XX, o neo-ateísmo é uma irreligiosidade burra, sem conteúdo, sem abertura ao diálogo, presa a interpretações equivocadas e superadas da história das religiões. Os neo-ateus da internet fazem uma militância ineficaz e sem razão de ser. Falta-lhes maturidade, leituras, seriedade, consistência histórica, filosófica, científica, enfim, falta-lhes muito para se tornarem verdadeiros ateus e deixarem de ser apenas jovenzinhos revoltados com o Pai Celestial.

Créditos: Bertone Souza.

Um comentário

  1. Concordo em partes, mas entendo que o crescimento do neo-ateísmo é uma reação ao crescimento do islamismo fundamentalista e das igrejas neopentecostais que passaram a explorar a fé das pessoas afim de obterem poderes políticos e econômicos, o que Dawkins pretendia com o seu livro Deus, um delírio, é popularizar o ateísmo, e isto só é possível através de linguagem que fuja dos discursos rebuscados de intelectuais, ou seja, para ser ateu, basta não crer, até um analfabeto pode ser ateu;Na questão da religião como algo antagônico à ciência é uma discussão que todos podem debater. Por que os (Líderes) religiosos não querem está discussão? Por razão simples: 98% são religiosos, ou seja, em time que está ganhado não se mexe.

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