O argumento moral

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As raízes do argumento moral a favor da existência de Deus são encontradas em Romanos 2:12-15, onde o Apóstolo Paulo fala que a humanidade é indesculpável porque tem a “lei escrita no coração”. Nos últimos 250 anos, este argumento tem sido proposto de diversas forma s, sendo que sua forma mais popular vem de C. S. Lewis (1898-1963), na primeira parte do seu conhecido livro Mere Christianity (Cristianismo Simples). O cerne do argumento segue a seguinte estrutura básica:

(1) A Lei Moral implica um Legislador Moral.
(2) Existe uma lei moral objetiva.
(3) Portanto, existe também um Legislador Moral objetivo.

A primeira premissa é auto-evidente. Uma lei moral é um preceito, e preceitos são passados por preceptores. Ao contrário das leis da natureza (que são somente descritivas), as leis morais são preceptivas: Elas não descrevem o que as coisas são; elas prescrevem como elas deveriam ser. Elas não são somente uma descrição da maneira como as pessoas se comportam, mas imperativos de como deveriam se comportar.

A força do argumento moral a favor da existência de Deus está na segunda premissa—aquela que afirma a existência de uma lei moral objetiva. Ou seja, existe uma lei moral que não somente é prescrita pelos seres humanos, mas também para os seres humanos. A questão é se existe alguma evidência a favor de um preceito objetivo e universal que englobe todos os seres humanos.

A evidência a favor de uma lei moral objetiva é forte; ela fica implícita nos julgamentos morais que fazemos: “O mundo está ficando melhor (ou pior)”. Como podemos saber disso, se não há algum tipo de parâmetro através do qual possamos medir o grau de melhora no mundo? Da mesma forma, frases como “Hitler estava errado” perdem o seu significado quando se tratam de simples questão de opinião ou são culturalmente relativizadas. Só que se Hitler estava realmente (e objetivamente) errado, precisa haver uma lei moral por detrás de todos nós, e à qual todos precisamos nos subordinar. E, se existe esta lei moral objetiva que nos prende a todos, então existe também, necessariamente, um Legislador Moral (Deus).

C. S. Lewis responde de forma efetiva às objeções típicas a este argumento moral, conforme parafraseado no texto a seguir (veja Lewis, CPS, parte 1).

1) Esta Lei Moral não E um Mero Instinto Coletivo:
O que chamamos de lei moral não pode ser o resultado de uma espécie de instinto coletivo, senão o impulso mais forte em nós sempre sairia vitorioso. Ele não é. Além disso, nós sempre agiríamos a partir dos nossos instintos, para reforçá-los, e não em direção a eles, a fim de dominá-los (por exemplo, para ajudar uma pessoa em perigo), como fazemos poucas vezes. Por fim, se a lei moral fosse somente um instinto coletivo, concluiríamos que os instintos sempre estão certos, mas sabemos que as coisas não são assim. Até mesmo o amor e o patriotismo são, às vezes, errados.

2) Esta Lei Moral não Pode Ser uma Convenção Social:
Nem tudo o que se aprende por intermédio da sociedade está baseado em convenções sociais (por exemplo, a matemática ou a lógica), da mesma forma que a lei moral também não é meramente uma norma social. Evidências a favor deste argumento podem ser vistas em todas as sociedades, já que praticamente todas apresentam as mesmas leis morais, sejam estas civilizações presentes ou passadas. Além disso, juízos sobre o progresso social não seriam possíveis se a sociedade fosse a base para os julgamentos.

3) Esta Lei Moral E Diferente das Leis da Natureza:
A lei moral não deve ser identificada com as leis da natureza, porque estas últimas são descritivas (são), e não prescritivas (deveriam), como as leis morais o são. Na verdade, situações factualmente diferentes (o modo como as coisas são) podem ser moralmente erradas e vice-versa. Por exemplo, se alguém tenta passar por cima de mim e não consegue, esta pessoa cometeu um erro e é culpada, enquanto que alguém que acidentalmente tropeça por cima de mim não pode ser considerada culpada por isso.

4) A Lei Moral não é simplesmente um Capricho Humano:
A lei moral também não pode ser simplesmente um capricho humano, porque não podemos nos livrar dela, mesmo em situações em que isto seria interessante para nós. Nós não a criamos; ela foi claramente impressa em nós, a partir do nosso exterior. E se ela não passasse de fantasia, todos os juízos de valores perderiam o seu significado, inclusive afirmativas como “o assassinato é errado”, ou “o racismo é errado”. Mas, se a lei moral não é nem uma descrição nem uma prescrição meramente humana, ela passa a ser uma prescrição moral vinda de um Preceptor Moral que transcende a humanidade. Como notou Lewis, este Legislador Moral está mais para uma mente do que para a natureza. Ele é tão parte da natureza quanto um arquiteto é parte de um prédio que ele projeta.

5) A Injustiça não Desabona o Legislador Moral:
A principal objeção a um Legislador Moral perfeito é o argumento a partir do mal que existe no mundo. Nenhuma pessoa séria pode fechar os olhos e deixar de reconhecer que todos os assassinatos, os estupros, o ódio e a crueldade tornam o mundo um lugar muito longe da perfeição. Mas, se o mundo é imperfeito, como poderia existir um Deus absolutamente perfeito? A resposta de Lewis é simples e vai direto ao ponto: A única forma pela qual poderíamos saber que o mundo é imperfeito é ter um padrão absolutamente perfeito de justiça com o qual possamos compará-lo, a fim de saber se ele não é justo. E a injustiça absoluta é somente possível se houver um padrão absoluto de justiça. Lewis esclarece, nas suas próprias palavras:

“O meu argumento contra Deus era que o universo me parecia demasiadamente cruel e injusto. Mas de onde foi que tirei esta idéia de justo e injusto? Um homem jamais pode afirmar que uma linha é torta se não tiver algum tipo de noção do que é uma linha reta […] Assim, na minha própria tentativa de provar a inexistência de Deus — em outras palavras, que a realidade como um todo era sem sentido —, descobri que eu era forçado a considerar que uma parte da realidade — ou seja, a minha idéia de justiça — estava cheia de sentido. Consequentemente, o Ateísmo passou a ser demasiadamente simplista para mim” (Lewis, CPS, 45-46).

Em vez de tentar provar a inexistência de um Ser moralmente perfeito, na verdade o mal que existe no mundo pressupõe um padrão absolutamente perfeito. Alguém poderia levantar a objeção de que o Legislador Máximo não é mesmo todo-poderoso, mas jamais a de que Ele não é perfeito.

Fonte: NORMAN GEISLER, Teologia Sistemática Vol I.

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