O Argumento Ontológico Modal de Alvin Plantinga para provar a existência de Deus.

 

Alvin Plantinga
O renomado filósofo norte-americano foi agraciado recentemente com o Prêmio Templeton por suas contribuições para a filosofia cristã.

 

O Argumento Ontológico, segundo Alvin Plantinga é uma versão do argumento ontológico baseado na relação entre “mundos possíveis” e “mundo real” com o conceito de um ser maximamente grande. Para melhor entendimento, é necessário alguma noção de lógica modal. Este argumento é tido hoje, por muitos, como a versão “vitoriosa” em relação as demais versões do argumento já apresentadas. É também um dos mais poderosos argumentos lógico-dedutivos a favor da existência de Deus. Ele basicamente tenta provar a existência de Deus apenas com o auxílio do raciocínio abstrato, sendo também o mais conhecido argumento teísta a priori, isto é, ele não é baseado em evidências, mas tenta demonstrar, a partir do conceito do próprio “Deus”, que este, necessariamente, existe.

Devemos ter em mente que duas coisas são necessárias para que aceitemos que uma determinada coisa possa existir: Ausência de incoerência e ausência de contradições lógicas. Se algo é aparentemente coerente e não apresenta nenhuma contradição lógica interna(como “solteiro casado” ou “círculo com três ângulos”), então normalmente verificado pela não-quebra da Lei da Não-Contradição ou de uma definição, então é razoável que aceitemos que essa coisa pode existir. Como o conceito de um ser onipotente e onisciente não é nem incoerente e tampouco ilógico, torna-se razoável que seja mesmo possível que Deus exista, validando assim todo o argumento.

O argumento modal de Alvin Plantinga é provalvemente o melhor argumento para a existência de Deus. Ele usa as leis da lógica modal que age semelhante a uma prova matemática. Talvez seja por isso que muitas pessoas têm dificuldade em entendê-lo e, por isso, o descartam logo de cara. Neste artigo, tentarei articular o argumento de maneira que este seja facilmente compreendido. Se você é um teísta, é importante entender tal argumento, pois UMA VEZ COMPREENDIDO CORRETAMENTE, ele é IRREFUTÁVEL. E mesmo que você seja um ateu, também é importante entendê-lo, para que não pareça um tolo ao compreende-lo de maneira equivocada. Então, seu silogismo ficaria assim:

1- É POSSÍVEL QUE DEUS(UM SER MAXIMAMENTE GRANDE) EXISTA.

2- SE É POSSÍVEL QUE DEUS(UM SER MAXIMAMENTE GRANDE) EXISTA, ENTÃO DEUS(UM SER MAXIMAMENTE GRANDE) EXISTE EM ALGUNS MUNDOS POSSÍVEIS.

3- SE DEUS(UM SER MAXIMAMENTE GRANDE) EXISTE EM ALGUNS MUNDOS POSSÍVEIS, ENTÃO ELE EXISTE EM TODOS OS MUNDOS POSSÍVEIS.

4- SE DEUS(SER MAXIMAMENTE GRANDE) EXISTE EM TODOS OS MUNDOS POSSÍVEIS, ENTÃO ELE EXISTE NO MUNDO REAL.

5- SE DEUS(SER MAXIMAMENTE GRANDE) EXISTE NO MUNDO REAL, ENTÃO DEUS(UM SER MAXIMAMENTE GRANDE) EXISTE.

6- LOGO, DEUS(UM SER MAXIMAMENTE GRANDE) EXISTE.

Agora você, provavelmente, deve estar pensando que isso não faz absolutamente sentido nenhum, visto que a lógica destas premissas aparentam ser inconsistentes. Não se preocupe, pois iremos analisá-las de forma que possamos entendê-las. Primeiramente, devemos entender o que são “mundos possíveis”. Nada mais é do que uma SITUAÇÃO HIPOTÉTICA. Geralmente é uma maneira dos filósofos testarem uma ideia para ver se é lógica, indagando se ela existiria em um mundo possível semelhante ao nosso.

Contudo, a única coisa que as pessoas parecem não entender perfeitamente no argumento é a forma pela qual Deus é definido. Alguns ateus dizem que apenas estamos imaginando Deus como se ele existisse, como por exemplo, um “grupo de ateístas sagazes” que afirmam a existência de um unicórnio mágico somente por estabelecer que tal ser existe. Dito isso, eles concluem que o argumento não funciona, o que é um erro grotesco!(Sabemos que um unicórnio não poderia estar no lugar de Deus porque é um ser físico, portanto impossível de ser a causa do universo de acordo com a cosmologia moderna). Vamos analisar a forma de como Deus é entendido no argumento e como difere do modo como definiríamos um unicórnio. Há três maneiras de definir um ser ou entidade no Argumento Ontológico:

1- UMA ENTIDADE PODE SER IMPOSSÍVEL(ISTO É, UMA ENTIDADE QUE NÃO EXISTE EM NENHUM MUNDO POSSÍVEL), COMO, POR EXEMPLO, UM CÍRCULO QUADRADO.

2- UMA ENTIDADE PODE SER CONTINGENTE, O QUE SIGNIFICA QUE ELA EXISTE EM ALGUNS MUNDOS POSSÍVEIS, COMO POR EXEMPLO, O UNICÓRNIO. UM UNICÓRNIO PODERIA EXISTIR EM ALGUNS MUNDOS POSSÍVEIS, MAS NÃO EM OUTROS.

3- E, POR ÚLTIMO, UMA ENTIDADE PODE SER NECESSÁRIA, O QUE SIGNIFICA QUE ELA DEVE EXISTIR EM TODOS OS MUNDOS POSSÍVEIS.

Mas o que queremos dizer ao afirmar que algo necessário deve existir em todos os mundos possíveis? Exemplos de entidades necessárias são: Números, verdades absolutas e definições de formas(figuras geométricas). Por exemplo, o numero 2: Ninguém o criou, ele existe necessariamente. Ele simplesmente não pode não existir. Tome uma definição geométrica como outro exemplo: Um quadrado deve ter quatro lados. Um quadrado não pode existir com apenas três lados, porque isso seria logicamente incoerente em qualquer mundo possível. Então uma entidade necessária é algo que não pode ser falso ou falhar em existir em qualquer mundo possível. Consequentemente, ela tem que existir necessariamente em TODOS OS MUNDOS POSSÍVEIS.

Então quando falamos de Deus nesse argumento, estamos dizendo que, se ele existe, ele teria que ser uma entidade necessária, porque Deus é definido como um ente de GRANDEZA MÁXIMA. Logo, se Deus é concebido como um ser de GRANDEZA MÁXIMA, (isto é, um ser que é maximamente excelente em todos os mundos possíveis), então sua existência ou é necessária ou impossível, independentemente da nossa incerteza do ponto de vista epistemológico. Imagine ver alguma equação matemática extraordinariamente difícil escrito na lousa. Se for além da nossa capacidade de compreender, podemos dizer que é possível que a equação seja verdadeira e é possível que ela seja falsa. Mas, assim, meramente confessamos nossa incerteza epistêmica relativa ao valor de verdade da equação. Como uma questão matemática, a própria equação ou é necessariamente verdadeira ou necessariamente falsa. Nós simplesmente não sabemos qual. Mas se for verdade, é necessariamente verdade, e, portanto, não é possível que ela seja falsa. E se ela for falsa, então é necessariamente falsa, e, portanto, não é possível que seja verdade. A necessidade de existência de Deus não é uma propriedade justamente porque não se infere simplesmente a existência de tal ser a partir de sua definição. Infere-se a sua existência a partir da possibilidade de que tal ser exista.

Agora, observando melhor os termos que vimos anteriormente, Se Deus fosse contingente, ele não seria um ente de grandeza máxima, porque ele existiria em apenas alguns mundos possíveis, o que seria menor do que se ele existisse em todos os mundos possíveis. Uma curiosidade é que a ideia de Deus ser necessário é consistente com as Escrituras. Quando os céticos tentam refutar o argumento ontológico utilizando uma premissa na qual Deus é substituído por um unicórnio, eles tentam definir Deus da mesma forma que se define um ente contingente. Enquanto que, quando usamos Deus no Argumento Ontológico, queremos dizer que Deus é maior do que as entidades contingentes, pois ele é de grandeza máxima. E tudo aquilo que é de grandeza máxima DEVE SER UM ENTE NECESSÁRIO, pois, caso contrário, não seria um ente de grandeza máxima. Então, uma vez entendido a forma como Deus é definido no argumento, vamos voltar às premissas:

Premissa 1: É possível que Deus, um ente de grandeza máxima e necessária, exista.

Premissa 2: Se é possível que um ente de grandeza máxima exista, então tal ente de grandeza máxima existe em alguns mundos possíveis.

Premissa 3: Se um ente de grandeza máxima existe em alguns mundos possíveis, então um ente de grandeza máxima existe em todos os mundos possíveis.

Lembre-se: Se um ente de grandeza máxima existe, então ele deve ser uma entidade necessária, pois uma entidade contingente(isto é, que existe apenas em alguns mundos possíveis) não pode ser de grandeza máxima.

Premissa 4: Se um ente de grandeza máxima existe em todos os mundos possíveis, então o ente de grandeza máxima existe no mundo real, uma vez que o mundo real é contado como um dos mundos possíveis.

Premissa 5: Se um ente de grandeza máxima existe no mundo real, então um ente de grandeza máxima existe.

Premissa 6: Um ente de grandeza máxima existe.

Então, se sente convencido? Na verdade não, né? Mas o que sumariza a questão não é a maneira como você se sente, mas sim a maneira como é logicamente coerente. Agora que, felizmente, você sabe como Deus é definido no argumento, você pode entender como o Argumento Ontológico Funciona. Há objeções ao argumento? Sim, mas apenas na premissa 1, uma vez que as demais premissas são apenas deduções lógica-modais incontroversas. A única maneira dos céticos desmerecerem este argumento é mostrar que a existência de um ente de grandeza máxima é(logicamente) impossível. O modo mais comum de se tentar isso é com o “PARADOXO DA ONIPOTÊNCIA”, que é comumente apresentado da seguinte forma:

“Deus pode criar uma pedra tão pesada que nem ele mesmo possa movê-la? Se Deus não pode criá-la, então ele não é todo-poderoso, mas se ele conseguir criá-la, então ele também não é todo-poderoso. Segue-se então que a ideia de Deus é impossível.”

Porém esta ideia é um absurdo lógico sem tamanho. Lembrando que a definição de onipotência é fazer tudo aquilo que está dentro da LÓGICA. “Mas por que Deus não pode fazer coisas ilógicas? Ele não é todo poderoso?” Nós precisamos entender que a lógica é derivada da ordem e, sem a ordem, nada faz sentido, incluindo a existência. Portanto, é inconcebível utilizar absurdos lógicos para tentar contestar a existência de Deus. Porque se absurdos lógicos governam sozinhos um mundo juntamente com Deus, então, essencialmente, nada nesse mundo poderia existir(seria logicamente impossível). Se um lado usa a lógica para provar a existência de Deus, o outro lado não pode sair do âmbito da lógica para contestar a existência de Deus. Lembrando que este não é um argumento de fácil entendimento, portanto, sugiro que leiam até que entendam por completo.

 

Todos os créditos ao blog Razão em Questão.

Link original do artigo e suas objeções: https://goo.gl/o1Hhrm

3 comentários

  1. Quanlima questão da pedra em relação a onipotência, a própria bíblia nos deixa uma resposta clara e satisfatória com relação a esse paradoxo. Além do argumento da lógica, temos o bíblico. A resposta seria SIM e NÃO ao mesmo tempo. Isso pode ser visto na própria trindade da parte do Pai(sim) e na parte do Filho(não), Jesus. Respondemos esse paradoxo da pedra com outro paradoxo. Deus Pai cria a pedra, porém o pai é onipotente e o Pai a levanta. Jesus, Deus Filho, não é capaz de levantar a pedra, pois habita em um corpo humano e a pedra é humanamente impossível para ser levantada, além do mais, ele por sí só não daria conta de levantar e isso completa a sentença de não poder levantar, entretanto se usasse um mecanismo externo, tipo uma máquina, poderia levantar, então também completa a sentença de poder levantar. Voltando ao paradoxo de Deus. O Deus da bíblia não pode morrer, mas morreu na cruz e está vivo. O Deus da bíblia não pode sangrar, pois é espirito e imaterial, mas deu todo seu sangue na cruz. O Deus da bíblia é onisciente desde sempre, mas teve que aprender e crescer em espírito e em verdade. O Deus da bíblia nunca foi criado, sempre existiu, mas teve que nascer em Belém, lugar que veio existir depois que Ele fez a terra(gn 1:1) etc. Ou seja, em outras palavras, o impossível não existe para o Deus da bíblia, pois para Deus, tudo é possível! Mesmo que nossa capacidade intelectual seja limitada e temporal para concebemos o infinito, para o Deus da bíblia não é limitada e Ele transcende todas as barreiras, pois o Deus da bíblia É!

  2. No final ainda a definição de Onipotência utilizada está correta, mas também tem a outra definição a de que Deus pode realizar atos até mesmo logicamente impossiveis, então o argumento da pedra é invalido nas duas maneiras. Ótimo texto.

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