Argumento Ontológico – Uma Breve Explanação – de Anselmo a John Locke

 

Neste, pretendemos demonstrar a opinião de alguns pensadores sobre o argumento ontológico. Iniciaremos em Anselmo de Cantuária, o pai do argumento ontológico, em seguida, demonstraremos algumas das críticas de Gaunilo à prova Anselmiana da existência de Deus, e, logo após, também traremos a tona as réplicas de Anselmo a Gaunilo. Tendo demonstrado isso, partiremos para a demonstração cartesiana, isto é, de Descartes, da existência de Deus, com base no argumento ontológico de Anselmo. Após, traremos a tona, também, algumas pequenas considerações de Locke sobre o argumento em questão.

 

Anselmo de Cantuária, como supracitado, foi o “pai” do argumento ontológico, isto é, aquele quem fundou o argumento sistematizado como o conhecemos, visto que o conceito de Deus como o maior ser concebível, parecia circular, mesmo que implicitamente, em filósofos anteriores a ele. Anselmo nos revela no Proslógio que sua intenção principal era substituir os argumentos que ele tinha oferecido no Monológio por um único argumento, independente de qualquer outro, que demonstrasse de modo certo que Deus existe, é o sumo bem e que ele não depende de nada, ao contrário, tudo depende dele. O motivo de tal “substituição de argumentos” era que os argumentos do Monológio eram difíceis de serem entendidos pelo seus “entrelaçamentos”, isto é, pela suas correlações.

 

Após algum tempo refletindo, Anselmo conseguiu encontrar um argumento que atendia aos critérios supracitados. O argumento de Anselmo consiste em: afirmar que Deus é um ser do qual não se pode pensar nada maior e que, a partir do momento que alguém ouve e compreende tais palavras, mesmo que esse alguém negue que esse ser exista na realidade, a quem Anselmo chama de insipiente, não pode, de forma alguma, negar que esse ser exista em sua inteligência, pois é possível, para Anselmo, ter algo na inteligência mesmo que não se compreenda que exista na realidade. Para provar tal ponto, Anselmo oferece a analogia do pintor, que consiste em afirmar que, o pintor, antes de realizar sua pintura, possui tal pintura na inteligência. O ponto nevrálgico aqui, para Anselmo, é demonstrar que a pintura existe na inteligência do pintor antes de ser compreendida como existindo na realidade, para, como supramencionado, demonstrar que é possível algo existir na inteligência sem que exista na realidade. Portanto, a intenção de Anselmo nessa primeira argumentação é demonstrar que, a partir do momento em que a frase: “o ser do qual não se pode pensar nada maior” é ouvida e compreendida, o insipiente tem de concordar – necessariamente – que tal ser existe em sua inteligência, mesmo que seja negado que exista na realidade.

 

Posto isto, Anselmo parte para a consequência lógica de se assumir que o ser do qual não se pode pensar nada maior existe na inteligência. Para ele, o ser do qual não se pode pensar nada maior não pode existir somente na inteligência, pois, caso contrário, poderia ser pensado um ser que existe na inteligência e na realidade, que seria um ser maior – com maior queremos dizer um ser mais perfeito. Portanto, se o ser do qual não é possível pensar nada maior existisse somente na inteligência, esse ser seria um ser do qual é possível pensar algo maior, o que é absurdo, visto que o ser do qual não se pode pensar nada maior não pode ser o mesmo ser do qual é possível pensar maior. Logo, infere Anselmo, que tal ser deve existir, necessariamente, na inteligência e na realidade.

 

Exposta a parte crucial do argumento anselmiano, convém expor o restante de seus argumentos que dão mais força a sua tese central. Anselmo também afirma que o ser do qual não se pode pensar nada maior, não pode ser pensado como não existente, pois, se fosse, ele não seria um ser do qual não se pode pensar nada maior, visto que, para Anselmo – partindo do pressuposto de que a existência é um predicado de perfeição – um ser que não pode ser pensado como não existente é maior do que um ser que pode. Ora, infere Anselmo, se o ser do qual não se pode pensar nada maior fosse passível de ser pensado como não existente; então, o ser do qual não se pode pensar nada maior, não seria tal ser, o que é ilógico, pois é contraditório. Portanto, como podemos ver, Anselmo estabelece uma impossibilidade epistemológica para fortalecer o seu argumento, pois, segundo ele, se alguém afirma que tal ser pode ser pensado como não existente, imediatamente, tal pessoa comete contradição.

 

Exposta a impossibilidade epistemológica de pensar que tal ser não exista – segundo os pressupostos de Anselmo – em seguida, Anselmo, então, busca esclarecer a razão de, mesmo com tal impossibilidade, as pessoas negarem que tal ser exista. Segundo o filósofo, é possível pensar em algo de duas maneiras: ¹pensando somente nas palavras que expressam a coisa, ou ²compreendendo a própria coisa que é expressada pelas palavras. Da primeira maneira, é possível pensar que o ser do qual não se pode pensar nada maior pode não existir, assim como seria possível que alguém, pensando somente nas palavras, pensasse que água e fogo fossem a mesma coisa, pois tal pessoa não remete o pensamento a coisa expressada pelas palavras, mas somente para as palavras. Porém, da segunda maneira, segundo Anselmo, é impossível pensar que o ser do qual não se pode pensar nada maior não exista, assim como seria impossível pensar que água e fogo fossem a mesma coisa, pois, nesse caso, ao contrário do primeiro, o pensamento, de fato, é remetido a coisa em si, e não meramente as palavras que expressam a coisa. Portanto, só é possível pensar que o ser do qual não se poder pensar nada maior não existe, atribuindo um significado diverso a tais palavras, ou sem lhas atribuir qualquer significado.

 

Nisto consiste o argumento ontológico formulado por Anselmo de Cantuária. Como vimos, ele ofereceu alguns pontos principais para formar seu argumento, a saber: da possibilidade de ter na inteligência um ser que não existe na realidade, do absurdo que seria se tal ser existisse somente na inteligência e da impossibilidade epistemológica de pensar tal ser como não existente.

 

Porém, é interessante notar que Anselmo parte de alguns pressupostos para estabelecer as características de um ser perfeitíssimo, por exemplo, a consideração de que a existência é um predicado e característica de perfeição. Ele toma isso como auto-evidente, visto que com base nisso ele fornece seus argumentos, porém sem argumentar em prol da existência ser um predicado de perfeição ou coisa semelhante, é meramente um axioma para ele.

Críticas de Gaunilo ao argumento ontológico, e as réplicas de Anselmo.

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Agora, exporemos algumas das críticas de Gaunilo, monge de Marmoutier, ao argumento ontológico. Críticas que ele fez quanto Anselmo ainda estava vivo, e que Anselmo replicou. Demonstraremos, então, além das críticas de Gaunilo, também, as réplicas de Anselmo.

 

Uma das principais Críticas de Gaunilo ao argumento ontológico de Anselmo é afirmar que não é possível pensar ou ter na inteligência – Gaunilo faz distinção entre pensar e compreender, ter na inteligência e ter no pensamento, podendo os seres falsos, que não existem na realidade, serem pensados e tidos no pensamento, mas não serem compreendidos e existirem na inteligência, isto só compete aos seres “reais” – “o ser maior entre todos que se possa pensar”. Pois, para ele, não é possível pensar nesse ser nem com referência a uma espécie, nem a um gênero e nem conhecê-lo em si. Para demonstrar tal ponto, ele oferece um exemplo: se alguém descrevesse um homem que ele não conhece, e cuja existência desconhece, ele conseguiria concebê-lo como real através da noção geral que possui de homem, isto é, através da espécie humana, conseguiria deduzir tal descrição mesmo que tal homem inexistisse. Todavia, quando se ouve a palavra Deus, ou a frase “o ser maior que todos”, tal ser poderia ser concebido na inteligência e no pensamento da mesma maneira falsa que concebeu o homem inexistente. Porém, no caso do homem, pôde-se concebê-lo devido ao conceito de homem em geral que o cognoscente possuía – é interessante notar que Gaunilo pensa que um ser falso não pode existir na inteligência, porém, nesta analogia, ele afirma que pôde “conceber na inteligência” um homem falso, isto é, que sequer existe-. Mas, e esse é ponto nevrálgico da argumentação de Gaunilo, quando se trata de pensar em Deus, segundo Gaunilo, não se tem nenhuma noção na qual o pensamento se “escora” como ponto fulcral para concebê-lo. Tudo o que se tem é apenas uma palavra, isto é, uma conotação verbal – que enquanto palavra é verdadeira. Porém, não se pode deduzir o que é Deus somente através de uma conotação verbal. O ponto central aqui é afirmar que não se pode compreender o que as palavras expressam se não se tem nenhum conceito daquilo que é expressado pelas palavras. Conceito que seria utilizado para deduzir e inferir o que está sendo dito, assim como no caso do homem inexistente que foi deduzido e inferido devido ao conceito de homem geral que o cognoscente possuía.

 

A isso, Anselmo responde, de maneira brilhante, que o que ocorre é justamente o contrário. Segundo ele, é, sim, possível pensar no ser do qual não se pode pensar nada maior, e isto se dá a partir de um conceito que qualquer ser humano possui. Anselmo afirma que esse conceito é o bem, qualquer bem existente, pois os bens menores remontam aos bens maiores, isto é, a partir de bens menores, pode-se deduzir bens maiores até chegar ao conceito do ser do qual não se pode pensar nada maior, ou seja, o maior bem concebível. Por exemplo: pode-se pensar em um ser que existe, mas é mortal, e, a partir disso, pensar que seria maior um ser que existe e é imortal, depois pensar que seria maior um ser que existe é imortal e é onipotente, e assim por diante, até chegar ao ser do qual não se pode pensar nada maior.

 

Há, ainda, outra resposta de Anselmo que, apesar dele não estar respondendo diretamente essa objeção, parece ser cabível aqui, pois ele está argumentando em prol da possibilidade de poder pensar e compreender o ser do qual não se pode pensar nada maior: Anselmo demonstra, com muita sagacidade, determinadas características que o ser do qual não se pode pensar nada maior deve possuir. Ora, nos informa Anselmo, o ser do qual não se pode pensar nada maior deve, necessariamente, existir por inteiro em todo lugar e tempo, pois o ser que não existe por inteiro em todo lugar e tempo pode ser pensado como não existente e, como vimos, para Anselmo, um ser que pode ser pensado como não existente não pode ser o maior ser concebível. Portanto, tudo aquilo que existe em um lugar determinado, mas não existe em outros lugares, ou que, ao contrário, existe em todos os lugares exceto em um lugar determinado, pode – em sentido lógico – ser pensado como não existente em lugar nenhum, da mesma maneira em que não existe em determinado lugar. O mesmo raciocínio se aplica ao tempo, isto é, tudo aquilo que se encontra em alguma parte do tempo, mas não em outras, pode, logicamente, ser pensado como não existente, assim como não existe em outras partes do tempo. Portanto, e esse é o ponto crucial de Anselmo com esse argumento, como é possível compreender algumas características do maior ser concebível é, também, possível compreendê-lo em certa medida, caso contrário, não se poderia, sequer, compreender característica alguma do maior ser concebível, logo, pode-se, em certa medida, compreender e pensar no ser do qual não se pode pensar nada maior.

 

Outro argumento oferecido por Gaunilo consiste em afirmar que a analogia do pintor, oferecida por Anselmo, é falha. Segundo Gaunilo, a pintura, antes de ser executada, existe na própria intuição artística do pintor, e não é algo que ele concebe e que passa a existir em sua inteligência. Gaunilo cita Agostinho como que reforçando sua argumentação. Agostinho afirma que quando um artífice está para construir uma arca, ele a tem primeiro em sua “arte”, e, depois da arca construída, a arca em si não é vida, porém, aquela que se encontra na “arte”, isto é, na intuição artística do autor, é vida, pois vive da vida da alma do artista. A partir dessa perspectiva de Agostinho, Gaunilo infere que tal só pode ser vida na alma vivente do artista enquanto parte de sua própria alma. Contrastando, assim, a verdade conhecida na inteligência e a própria inteligência.

 

Para responder essa objeção, Anselmo não faz muito esforço. Ele, através de uma refutação simples e eficaz, meramente afirma que o argumento de Gaunilo baseado em Agostinho, simplesmente, não refuta em nada a sua analogia do pintor. Anselmo nos informa que ele utilizou a analogia do pintor somente para demonstrar que algo pode existir na inteligência antes de existir na realidade, mas não para demonstrar que exatamente da mesma maneira que a pintura existe na inteligência do pintor; também, deve existir o ser do qual não se pode pensar nada maior. Portanto, para Anselmo, a crítica de Gaunilo não surte nenhum efeito em sua argumentação com base na analogia do pintor.

 

Outra objeção de Gaunilo a Anselmo consiste em afirmar que não se pode dizer que não é possível pensar que o ser do qual não se pode pensar nada maior pode não existir quando, na verdade, é possível pensar que Deus não existe.

 

Ao que Anselmo responde que é, simplesmente, ilógico negar o que se compreende por entender que tal coisa implica, justamente, aquilo que se nega porque não se compreende. Isto é, não é lógico negar o ser do qual não se pode pensar nada maior somente porque se pode negar Deus. Sendo assim, o ser do qual não se pode pensar nada maior é uma maneira mais fácil de demonstrar a existência de Deus, pois se se nega Deus porque ele não é compreendido, deve-se tentar demonstrar a existência de Deus a partir daquilo que é compreendido.

Há outras objeções ao argumento anselmiano por parte de Gaunilo, como o famoso argumento da ilha perfeita. E, também, outras réplicas de Anselmo a Gaunilo – além da réplica ao próprio argumento da ilha perfeita, como também a demonstração de que Gaunilo deturpou seu argumento, ao afirmar frequentemente “o ser maior que todos” quando o correto seria “o ser do qual não se pode pensar nada maior”, atacando um espantalho e etc -. Mas, como o presente trabalho não pretende ser exaustivo acerca dessa tema, nos manteremos somente nessas objeções e réplicas.

Da Prova Cartesiana da Existência de Deus 

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Um dos pensadores que acatou, em certa medida, o argumento anselmiano, foi Descartes. Dizemos em certa medida, pois, de fato, a maneira que Descartes tenta provar a existência de um ser perfeitíssimo a priori é diferente da maneira anselmiana de provar a existência de tal ser, também a priori.

 

Enquanto Anselmo parte da possibilidade de se pensar no ser do qual não se pode pensar nada maior, Descartes, depois de uma longa investigação no res cogitans, parte da ideia inata desse ser na mente para provar sua existência. Descreveremos, em linhas gerais, os passos dados por Descartes para inferir a existência desse ser perfeitíssimo.

 

Na I meditação do livro: Meditações Sobre Filosofia Primeira, Descartes introduz a dúvida hiperbólica, que consiste em não aceitar como verdade tudo aquilo que é passível de dúvida (Med. I. § 2). O objetivo de Descartes com tal método – a dúvida hiperbólica – é tentar averiguar sobre o que, de fato, pode-se ter certeza absoluta. Movendo-se nesse sentido, a primeira coisa que Descartes descarta como podendo ter certeza, são as coisas sensíveis, pois, segundo ele, assim como, muitas vezes, não é possível distinguir o sonho da realidade, também não se pode ter certeza dos sensíveis, pois não haveria como ter certeza de que tais entes não passam de um sonho engendrado pela mente. Todavia, Descartes se dá conta de que esse argumento não pode ser aplicado para tudo, por exemplo, as ideias matemáticas, pois, seja dormindo ou acordado, três mais cinco sempre serão oito. Com base nisto, e querendo tomar como falso tudo aquilo que possua o menor grau de dúvida que seja, Descartes introduz o conceito do Gênio ou “deus” Maligno. Tal Gênio Maligno seria uma espécie de enganador poderoso, que tem por objetivo enganar o cognoscente de todas as maneiras possíveis.

 

Como Descartes busca a certeza e não a dúvida, ele se propõe a tentar encontrar algo que, mesmo na hipótese do gênio maligno, não possua nenhum resquício de dúvida. E, na segunda meditação, Descartes encontra a substância pensante como não passível de dúvida, pois, tente o Gênio Maligno enganá-lo quanto quiser, é certo que ele existe enquanto ser pensante. E, até então (II meditação), esta é a única certeza que Descartes possui (ego sum, ego existo).

 

Tendo sido encontrado algo que não é passível de dúvida, ainda permanece a hipótese de um Gênio Maligno, ao que Descartes se propõe a investigar se realmente há um Deus – Descartes considerava o Gênio Maligno como uma espécie de “deus” – e, se ele existe, pode ser enganador, pois, de acordo com o método de Descartes – dúvida hiperbólica – não se pode ter certeza de mais nada se não houver certeza sobre estas duas coisas, a saber, se há um Deus e se ele pode ser enganador (Med. III, § 5).

 

Descartes passa a investigar o nível de realidade formal que uma ideia deve ter em comparação com as ideias objetivas que existe em sua mente. Isto é, para Descartes (Med. III, § 16), aquilo que possui mais substância e qualidades de perfeição, possui mais realidade do que aquilo que possui menos de tais atributos, e ele chama de realidade formal aquilo que, de fato, existe na realidade, e realidade objetiva é aquilo que existe na inteligência. O ponto central aqui é analisar as ideias que ele possui na inteligência e, a partir do nível de realidade objetiva delas, inferir se há alguma coisa extrínseca a ele mesmo, que é a causadora dessas ideias, visto que se ele possui uma ideia com realidade objetiva maior do que sua própria realidade formal, ele, jamais, poderá ser a causa desta ideia. E, para entender isso, é preciso entender o axioma estabelecido por ele. O qual afirma que, a causa de um efeito deve, no mínimo, possuir tanta realidade e perfeição quanto o efeito, caso contrário, o efeito não poderia obter tal realidade e perfeição, e isto nos parece correto por definição.

 

Após analisar as ideias que há em si mesmo, a única ideia que ele – Descartes – percebeu como existente impossível de ter sido causada por ele mesmo é a ideia de Deus. Com Deus Descartes quer dizer: uma substância infinita, independente, imutável, eterna, sumamente inteligente e sumamente poderosa, em suma, um ser perfeitíssimo. Ora, com base nesta ideia, Descartes infere que jamais teria realidade formal e perfeição suficiente a ponto de poder causá-la, com realidade objetiva e perfeição maiores que a realidade formal e perfeição dele. Portanto, assumindo seu axioma, a única explicação para isso é que, tal ideia foi colocada em seu ser por um ente com tal realidade formal e perfeição. E, ele – Descartes – também conclui que, este ser, jamais, pode ser enganador, pois, caso contrário, não seria um ente perfeitíssimo, porque o engano é uma característica de imperfeição.

 

Enquanto Anselmo parte da possibilidade da ideia de um ser do qual não se pode pensar nada maior para estabelecer que ele necessariamente deve existir, Descartes infere que a ideia de Deus nele só pode ser inata, e parte dessa ideia inata para deduzir a sua causa, que é Deus, um ente perfeitíssimo.

Uma pequena Crítica de Locke ao Argumento Ontológico.

 

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Exporemos agora, como citado no parágrafo inicial, uma pequena crítica de Locke ao argumento ontológico. É válido salientar que dizemos “pequena crítica” simplesmente porque será apenas uma pincelada em algumas das críticas de Locke ao argumento, mas, de forma alguma, neste presente trabalho, pretendemos tratar de modo exaustivo sobre a crítica lockeana ao argumento anselmiano/cartesiano.

 

De forma geral, Locke nega o inatismo (Ensaios sobre o entendimento humano I I 1-18). Para ele, o fato de não haver consenso ou anuência universal sobre nada, nem mesmo sobre aquilo que parece ser a coisa mais básica aceita pela humanidade, como a lei da não contradição, que, segundo Locke, não é tão aceita por crianças e idiotas, é uma prova de que não existe ideia inata no ser humano (Ensaios sobre o entendimento humano I I 4-5). O raciocínio de Locke neste ponto parece ser o seguinte:

1- Se há ideias inatas no ser humano, há consenso universal dos princípios aos quais essas ideias se referem.

2- Não há consenso universal sobre nenhum princípio.

3- Logo, não há ideias inatas.

Então, de forma geral, Locke nega que haja ideias inatas, e isto já constitui uma crítica ao inatismo da ideia de Deus e do próprio ego proposto por Descartes.

 

Outra crítica feita por Locke ao argumento cartesiano/anselmiano, consiste em afirmar que, buscar demonstrar a existência de Deus a partir de sua ideia, isto é, da ideia de um ente perfeitíssimo, não parece ser uma maneira sólida de se fazer isso, simplesmente, porque, segundo ele – Locke – há homens que não possuem tal ideia em suas respectivas mentes (Ensaios Sobre o Entendimento Humano IV X 7), parecendo querer dizer que o argumento anselmiano/cartesiano não pode ser usado por todos, pois nem todos possuem a ideia de Deus. Locke, no capítulo X do livro IV, não parte da ideia de Deus para demonstrar que ele existe, isto é, não busca demonstrar a existência de Deus a priori, antes, a posteriori, ou seja, a partir da própria observação, da própria experiência.

 

Estão demonstrados, portanto, em linhas bem gerais, alguns motivos do porquê Locke não aceita o argumento cartesiano/anselmiano.

Confira a fonte original do texto: Ponderationes Filosóficas

 

Fontes:

LOCKE E A CRÍTICA À PROVA CARTESIANA DA EXISTÊNCIA NECESSÁRIA DE DEUS: UM PROBLEMA MORAL – Saulo Henrique Souza Silva.

Proslógio – Anselmo de Cantuária.

Meditações Sobre Filosofia Primeira – Descartes

Ensaio Sobre o Entendimento Humano – John Locke

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