Introdução à Teoria das Quatro Causas de Aristóteles

ar

Fonte: clique aqui!

A teoria das quatro causas de Aristóteles certamente goza de uma fama considerável. Mesmo aqueles que nunca leram ou nunca leram muito Aristóteles já ouviram ou conhecem superficialmente a teoria em questão. Entretanto, ao que parece, poucos realmente a conhecem com alguma profundida. É devido a isso que, neste texto, pretendemos oferecer uma exposição geral e didática da teoria dos quatro tipos ou espécies de causa.

Decerto, as quatro causas são conhecidas pelos estudantes como material, formal, eficiente e final. Entretanto, tais designações não são do próprio Aristóteles. São designações tardias dadas pelos medievais. Tendo isso mente, veremos como aristóteles designava cada uma das quatro causas e buscaremos elucidar os conceitos que elas carregam consigo.

Antes de expormos os quatro tipos de causa, é necessário nos perguntarmos: o que é uma causa? Como aristóteles responderia a tal pergunta? Nós falamos de causa frequentemente, mas, não obstante isso, nunca vemos ou percebemos por qualquer outro sentido algo que seja em si mesmo uma causa, isto é, essencialmente uma causa. Nós temos contato direto com seres humanos, animais, plantas, mas nunca com coisas que sejam elas mesmas causas. Assim sendo, o que é uma causa? Há coisas que são elas mesmas causas?

Para responder essa questão, nós precisamos, antes, entender o que é sentido conotativo e sentido denotativo de algo. Sentido conotativo de algo diz respeito às características ou notas distintivas de tal, sentido denotativo diz respeito àquilo em relação ao qual essas características se aplicam. Por exemplo, umas das características da substância (sentido conotativo) é ser um suporte, sustentáculo de atributos. Agora, com um fim meramente pedagógico, suponhamos que essa seja a única característica da substância. Então, tudo aquilo que possuir essa característica é uma substância! (sentido denotativo). Ou seja, quando falamos das características de um conceito, temos o sentido conotativo; e, quando apontamos para algo que possui tais características, temos o sentido denotativo. Portanto, dentro da nossa suposição, eu, você, todos os animais, plantas e etc. seríamos substâncias.

Exposto isso, é necessário fornecer o sentido conotativo de causa para sabermos quais coisas podem ser consideradas causas. O que é, então, causa? (questão equivalente a pergunta pelo sentido conotativo de causa). Como nos mostra Angioni (2011), tudo aquilo que Aristóteles designa como causa ele o faz por tal coisa exercer uma determinada função, função essa que nos dá o sentido conotativo de causa. Angioni argumenta que causa, para Aristóteles, é tudo aquilo que condiciona ou fundamenta uma determinada propriedade em um determinado subjacente, satisfazendo, assim, uma estrutura triádica. Toda causa é uma causa B de uma propriedade A em um subjacente C. E aqui é irrelevante se a causa é uma outra propriedade do subjacente ou alguma outra coisa que, relacionada de algum modo com tal, condiciona o ocorrimento de um certo atributo nele; da mesma maneira, é irrelevante se o atributo é um atributo acidental simples, próprio (coextensivo com a espécie de tal substância) ou um atributo essencial (também coextensivo, mas que, além disso, se refere à essência de tal espécie de substância). Portanto, denotativamente falando, toda causa é causa por satisfazer tal estrutura triádica.

Agora que já sabemos o que uma causa é, e o porquê de certas coisas que não são em si mesmas causas serem chamadas de causas, estamos aptos a adentrar na exposição propriamente dita. A principal discussão teórica sobre a teoria das quatro causas, em Aristóteles, encontra-se no capítulo 3 do livro II da Física e no capítulo 3 do livro V da Metafísica, de fato, em ambas as passagens, temos praticamente o mesmo texto exposto. Nos capítulos em questão, Aristóteles nos apresenta os quatro tipos e fornece exemplos sobre cada um deles. Mas não nos percamos, todas essas quatro causas continuam sendo causas por satisfazerem a supramencionada e explicada estrutura triádica. Portanto, todos os quatro tipos de causas são como que modos de satisfazer a tal. É elucidativo pensar na satisfação da estrutura como um gênero e nos quatro tipos de causa como espécies.

Como dito, ambos os capítulos supramencionados trazem basicamente o mesmo texto sobre a teoria das quatro causas. Entretanto, em nossa explanação, estaremos seguindo sobretudo o capítulo 3 do livro II da Física. Aristóteles começa expondo aquilo que, na tradição posterior, ficou conhecido como causa material. Ele a designa como o item imanente de que algo provém, e cita como exemplo o bronze da estátua e a prata da taça. No capítulo 7 do livro I da Física, Aristóteles, em uma análise metafísica sobre o devir, conclui que, em todo processo de devir, deve haver algo subjacente que, enquanto tal, suporta o processo de devir. Com tal afirmação, Aristóteles nos introduz o seu conceito de matéria. No capítulo 3 do livro I da Metafísica, em 983b 6, ao afirmar que, entre aqueles que primeiro filosoforam, a maioria julgou o princípio de todas as coisas apenas em forma de matéria, podemos ver um conceito semelhante sendo exposto pelo Estagirita. O que exatamente Aristóteles quer dizer ao descrever a causa em questão como “item imanente de que algo provém”? O filósofo se refere àquilo que, como já dito, subjaz e suporta um processo de devir, sendo a coisa que cumpre os critérios de (sentido conotativo) (1) pré-existir a um processo de devir, sobreviver ao final do processo (2) e (3) persistir durante todo o intervalo entre 1 e 2. Peguemos os exemplos dados por Aristóteles, tanto o bronze da estátua quanto a prata da taça cumprem tais requisitos. Percebam, ambos pré-existem, sobrevivem e persistem ao processo de geração da estátua e da taça. E é precisamente isso que Aristóteles quer dizer com “item imanente de algo provém”. É a coisa que satisfaz tal função enquanto satisfazendo, também, a função de condicionar ou fundamentar uma determinada propriedade em um determinado subjacente. Por exemplo, o bronze da estátua é um dos responsáveis pela propriedade “pesado” no subjacente estátua, e a prata da taça, pela propriedade “brilhante” na mesma. Assim sendo, se se é perguntado o porquê de a estátua ser pesada e a taça ser brilhante, uma das respostas, respectivamente, é o bronze e a prata. Portanto, sintetizando, podemos devidir a expressão de Aristóteles em duas e explicá-la assim: (1) “item imanente” é aquilo que existe na coisa quando a coisa é efetivamente, e (2) “de que algo provém” é aquilo que pré-existia à coisa.

Aristóteles, em seguida, expõe a causa formal. Ele diz: “denomina-se “causa” a forma e o modelo, e isso é a definição do “aquilo que o ser é”. É difícil saber exatamente o porquê de Aristóteles ter se referido à noção de “modelo”. Entretanto, felizmente, para nosso objetivo, não precisamos lidar com essa questão. O importante é saber que aristóteles designa a causa formal, aqui, como “a definição do aquilo que o ser é”. Ou seja, o Estagirita recorre à noção de enunciado definiens para falar da causa formal. Entretanto, como podemos apreender por outras passagens das obras de Aristóteles, e como argumenta Angioni (2009), Aristóteles não está fornecendo uma definição exata do que seja causa formal. Antes, ele a está elucidando por um conceito equivalente1.  Em Aristóteles, forma e “aquilo que o ser é” – não a definição de tal – são equivalentes (193b 1–2). Portanto, Aristóteles está recorrendo à noção de essência. Nesse sentido, causa formal é aquilo que faz algo ser o que é. É causa do ser, da essência da coisa. Portanto, em uma perspectiva aristotélica, animal racional é a causa formal de ser humano, porque animal racional é aquilo que faz ser humano ser aquilo que ele é, isto é, faz ser humano ser ser humano.

Aristóteles prossegue expondo aquilo que ficou conhecido como causa eficiente. Ele diz: “denomina-se “causa” aquilo de onde provém o começo primeiro da mudança”, e cita como exemplo aquele que deliberou e o pai da criança. Pelos exemplos citados, podemos apreender o escopo desse tipo de causa. Por exemplo, o pai seria causa eficiente nesse sentido, mas não o seriam os meios necessários para gerar a criança. Em um exemplo mais didático, podemos dizer que, nesse sentido, o médico seria causa eficiente, mas não o bisturi. Entretando, é necessário atentarmos que, para Aristóteles, o médico ou o pai ou aquele que delibera não parecem ser causas eficientes no sentido estrito e, portanto, não parecem ser exemplos estritamente adequados de seu conceito. Pois, um pouco mais adiante, ele diz: “É preciso sempre buscar a causa mais extrema de cada coisa, como nos outros casos (por exemplo: o homem constrói casa porque é construtor, e o construtor constrói segundo a arte da construção: ora, esta última é anterior, e é assim em todos os demais casos)” (Física 195b 21–25). Assim sendo, devemos considerar a causa eficiente no sentido estrito – a causa mais extrema – e, portanto, não o médico ou aquele que delibera seriam exemplos adequados. Mas a arte da medicina e o conhecimento que aquele que delibera possui e que o permite deliberar, o mesmo se aplica ao pai, por mais que seja difícil saber exatamente o que se enquadra nesse requisito. Portanto, a causa eficiente no sentido estrito é aquilo que é de todo responsável pela origem de um processo de movimento. Didadicamente, podemos pensar no exemplo de um médico realizando a cura em alguma pessoa doente (isso deve ser visto como um único processo de devir). Ora, a cura é realizada por certas ações do médico e através de certos instrumentos que o médicos utiliza. Entretanto, tais só ocorrem por causa da arte médica. Assim sendo, é a arte médica aquilo que é de todo responsável por um originar um processo de devir e, portanto, é aquilo de onde provém a origem do movimento.

Em sequência, Aristóteles expõe aquilo que ficou conhecido como causa final. Entretanto, logo após tal exposição, ele traz à tona uma outra causa, e diz: “Também se denomina “causa”, tudo que — uma outra coisa tendo iniciado o movimento — vem a ser intermediário para o fim”. Ora, se o Estagirita diz isso após já ter tratado da causa material, formal, eficiente e final, estaria, então, ele inserindo um quinto tipo de causa? Devemos falar de cinco e não quatro espécies de causa? É, de fato, estranho que Aristóteles tenha dito isso após já ter tratado dos seus quatro tipos de causa. Entretanto, é implausível pensar que ele estaria introduzindo um quinto tipo de causa, pois, em 195a 15, ele se refere somente a quatro e não cinco tipos de causa. Como, então, entender tal passagem? O mais plausível é interpretar tal causa como uma subdivisão da causa eficiente. Assim, a causa eficiente se subdividiria em duas, a saber, a causa eficiente em sentido estrito, que é, como vimos, aquilo que é de todo responsável por originar um processo de devir, e a causa eficiente em sentido amplo, que seria aquilo que funcionaria como causa auxiliar da causa eficiente. Isto é, as causas eficientes em sentido amplo seriam os intrumentos adequados para se alcançar o fim imposto pela causa eficiente no sentido estrito. E, de fato, Aristóteles utiliza como exemplos o emagrecimento, a purgação, as drogas ou os instrumentos, que são todos em vista da saúde, que seria o fim imposto pela causa eficiente no sentido estrito.

Por fim, nos resta expor a causa final. Aristóteles a descreve assim: “denomina-se causa como o fim, ou seja, aquilo em vista de quê”. Talvez essa seja a mais intuitiva das causas. Aristóteles utiliza como exemplo o caminhar em vista da saúde, de tal modo que a saúde seria a causa final do caminhar. Aqui, não parece haver muito segredo. A saúde é o propósito e, enquanto tal, a finalidade do caminhar, é aquilo em vista de quê. Mas, lembremos, é essa finalidade enquanto satisfazendo a estrutura triádica, pois é só na medida em que aquilo em vista de quê também exerce a função de ser o ítem responsável pela ocorrência de um dado atributo em dado subjacente, é que tal é considerado como causa.

De fato, não é exagero focarmos na necessidade de levarmos, sempre, em consideração a estrutura triádica exposta no começo do texto. Se isso não for levado em conta para cada uma das causas expostas, não se entende adequadamente a causalidade aristotélica.

 

1 Lucas Angioni defende que Aristóteles procede dessa maneira na exposição de cada uma das causas.

 

Referências Bibliográficas

Angioni, Lucas (2011). As quatro causas na filosofia da natureza de Aristóteles. Anais de Filosofia Clássica 10:1-19.

 

Angioni, Lucas (2009). Aristóteles, Física I-II. Editora da Unicamp.

 

Tuozzo, T. (2014-11-03). Aristotle and the Discovery of Efficient Causation. In Efficient Causation: A History. : Oxford University Press.

 

Angioni, Lucas (2008). Aristóteles, Metafísica Livros I, II e III. Campinas, Brazil: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade de Campinas.

 

Reale, Giovanni (2002). Metafísica de Aristóteles: Vol. II – Texto grego com tradução ao lado: 2. Edições Loyola; Edição: 5ª

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s